O compromisso de união com Cristo é o exemplo que nos oferece também São Paulo.

Prosseguindo as catequeses a ele dedicadas, detemo-nos hoje a refletir sobre um dos aspectos importantes do seu pensamento, o relativo ao culto que os cristãos são chamados a praticar. 

No passado, agradava falar de uma tendência bastante anticultual do Apóstolo, de uma “espiritualização” da ideia de culto.

Hoje compreendemos melhor que Paulo vê na Cruz de Cristo uma mudança histórica, que transforma e renova radicalmente a realidade do culto. Há, sobretudo, três textos da Carta aos Romanos nos quais sobressai esta nova visão do culto. 

I – O culto simbólico é substituído pelo culto real

Em Rm 3, 25, depois de ter falado da “redenção realizada por Jesus Cristo”, Paulo continua com uma fórmula para nós misteriosa e diz assim: Deus “preestabeleceu-O para servir como instrumento de expiação por meio da Fé, no Seu sangue”.

Com esta expressão para nós bastante inusual – “instrumento de expiação” –, São Paulo menciona o chamado “Propiciatório” do Templo antigo, isto é, a tampa da Arca da Aliança, que era considerada ponto de contato entre Deus e o homem, ponto da Sua presença misteriosa no mundo dos homens. 

O culto antigo, expressão de um desejo

Este “Propiciatório”, no grande dia da reconciliação – yom kippur – era aspergido com o sangue de animais sacrificados, sangue que simbolicamente levava os pecados do ano transcorrido em contato com Deus, e deste modo os pecados, lançados no abismo da bondade divina, eram como que absorvidos pela força de Deus, superados, perdoados. A vida começava de novo. 

São Paulo menciona este rito e diz: Este rito era expressão do desejo de que se pudessem realmente lançar todas as nossas culpas no abismo da misericórdia divina, e assim fazê-las desaparecer.

Mas com o sangue de animais não se realiza este processo. Era necessário um contato mais real entre culpa humana e amor divino. 

Com a Cruz de Cristo termina o velho culto

Este contato teve lugar na Cruz de Cristo. Cristo, verdadeiro Filho de Deus, que Se fez Homem verdadeiro, assumiu em Si todas as nossas culpas.

Ele próprio é o lugar de contato entre miséria humana e misericórdia divina; no seu coração dissolve-se a massa triste do mal realizado pela humanidade, e renova-se a vida. 

Revelando esta mudança, São Paulo diz-nos: com a Cruz de Cristo – o ato supremo do amor divino tornado amor humano –, o velho culto com sacrifícios dos animais no Templo de Jerusalém terminou.

Este culto simbólico, culto de desejo, agora é substituído pelo culto real: o amor de Deus encarnado em Cristo e levado a cumprimento com a morte na Cruz. 

Portanto, esta não é uma espiritualização de um culto real; mas, ao contrário, o culto real, o verdadeiro amor divino-humano, substitui o culto simbólico e provisório.

A Cruz de Cristo, o seu amor com a carne e com o sangue é o culto real, correspondendo à realidade de Deus e do homem.

Antes da destruição externa do Templo, para Paulo a era do Templo e do seu culto já tinha terminado: Paulo encontra-se aqui em perfeita sintonia com as palavras de Jesus, que tinha anunciado o fim do Templo e outro Templo “não construído por mãos humanas” – o Templo do seu corpo ressuscitado (cf. Mc 14, 58; Jo 2, 19ss).

Este é o primeiro texto.

II – Na união com cristo se realiza o culto verdadeiro

O segundo texto sobre o qual hoje gostaria de falar encontra-se no primeiro versículo do capítulo 12 da Carta aos Romanos: “Exorto-vos, portanto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais os vossos corpos como hóstia viva, santa e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual”. 

Um “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”

Verifica-se nestas palavras um aparente paradoxo: o sacrifício normalmente exige a morte da vítima, mas Paulo fala dele em relação com a vida do cristão.

A expressão “apresentai os vossos corpos”, considerando o conceito sucessivo de sacrifício, assume a tonalidade cultual de “dar em oblação, oferecer”.

A exortação a “oferecer os corpos” refere-se a todas as pessoas; de fato, em Rm 6, 13 ele convida a “apresentar-vos”.

De resto, a referência explícita à dimensão física do cristão coincide com o convite a “glorificar Deus no vosso corpo” (I Cor 6, 20): isto é, trata-se de honrar Deus na existência cotidiana mais concreta, feita de visibilidade relacional e perceptível.

Um comportamento como este é qualificado por Paulo como “sacrifício vivo, santo, agradável a Deus”. É aqui que encontramos precisamente o vocábulo “sacrifício”.

No uso corrente, esta palavra faz parte de um contexto sacral e serve para designar a degolação de um animal, do qual uma parte pode ser queimada em honra dos deuses e a outra ser consumida pelos oferentes num banquete. 

Paulo, ao contrário, aplica-o à vida do cristão. De fato, ele qualifica tal sacrifício servindo-se de três adjetivos. O primeiro – vivo – expressa uma vitalidade.

O segundo – santo – recorda a ideia paulina de uma santidade relacionada não com lugares ou objetos, mas com a própria pessoa dos cristãos.

O terceiro – agradável a Deus – talvez recorde a frequente expressão bíblica do sacrifício “em agradável odor” (cf. Lv 1, 13.17; 23, 18; 26, 31; etc.). 

Este modo de viver é “o vosso culto espiritual”

Logo a seguir, Paulo define assim este novo modo de viver: este é “o vosso culto espiritual”. Os comentadores do texto sabem bem que a expressão grega (ten logiken latreian) não é fácil de traduzir.

A Bíblia latina traduz: rationabile obsequium. A mesma palavra rationabile aparece na primeira Oração Eucarística, o Cânone Romano: nele reza-se para que Deus aceite esta oferenda como rationabile.

A habitual tradução portuguesa “culto espiritual” não reflete todas as conotações do texto grego (nem sequer do latino).

Contudo, não se trata de um culto menos real, ou até só metafórico, mas de um culto mais concreto e realista – um culto no qual o próprio homem na sua totalidade de um ser dotado de razão, se torna adoração, glorificação do Deus vivo. 

Esta fórmula paulina, que volta na Oração Eucarística romana, é fruto de um longo desenvolvimento da experiência religiosa nos séculos anteriores a Cristo.

Nesta experiência encontram-se desenvolvimentos teológicos do Antigo Testamento e correntes do pensamento grego. Gostaria de mostrar pelo menos alguns elementos deste desenvolvimento. 

Dos sacrifícios cruentos ao holocausto de um coração contrito

Os profetas e muitos Salmos criticam bastante os sacrifícios cruentos do Templo.

Por exemplo, diz o Salmo 50 (49), no qual é Deus quem fala: “Se Eu tivesse fome, não o diria a ti, pois o mundo é meu, e o que nele existe. Acaso comeria Eu carne de touros, e beberia sangue de cabritos? Oferece a Deus um sacrifício de louvor…” (vv. 12-14).

No mesmo sentido diz o Salmo seguinte, 51 (50): “Pois Tu não queres um sacrifício, e um holocausto não Te agrada. Sacrifício a Deus é um espírito contrito, coração contrito e esmagado, ó Deus, Tu não o desprezas” (vv. 18ss). 

No Livro de Daniel, no tempo da nova destruição do Templo por parte do regime helênico (século II a.C.), encontramos um trecho na mesma direção.

No meio do fogo – isto é, na perseguição, no sofrimento –, Azarias reza assim:

Não há mais, nestas circunstâncias, nem chefe, nem profeta, nem príncipe, nem holocausto, nem sacrifício, nem oblação, nem incenso, nem lugar onde oferecermos as primícias diante de Ti para encontrarmos misericórdia.

Contudo, com a alma quebrantada e o espírito humilhado, possamos encontrar acolhida, tal como se viéssemos com holocaustos de carneiros e de touros… Tal se torne o nosso sacrifício hoje diante de ti, e se complete junto a ti… (Dn 3, 38ss).

Na destruição do santuário e do culto, nesta situação de privação de qualquer sinal da presença de Deus, o crente oferece como verdadeiro holocausto o coração contrito – o seu desejo de Deus.

Chegou o tempo do culto verdadeiro

Vemos um desenvolvimento importante, mas com um perigo. Há uma espiritualização, uma moralização do culto: o culto torna-se só uma coisa do coração, do espírito.

Mas falta o corpo, falta a comunidade. Assim compreende-se, por exemplo, que o Salmo 51, e também o Livro de Daniel, apesar da crítica do culto, desejem a volta ao tempo dos sacrifícios.

Mas trata-se de um tempo renovado, um sacrifício renovado, numa síntese que ainda não era previsível, que ainda não se podia pensar. 

Voltemos a São Paulo. Ele é herdeiro destes desenvolvimentos, do desejo do verdadeiro culto, no qual o próprio homem se torne glória de Deus, adoração viva com todo o seu ser.

Neste sentido ele diz aos Romanos: “Oferecei os vossos corpos como sacrifício vivo…: este é o vosso culto espiritual” (Rm 12, 1). 

Paulo repete assim o que já tinha indicado no capítulo 3: o tempo de sacrifícios de animais, sacrifícios de substituição, terminou. Chegou o tempo do culto verdadeiro.

Mas aqui há também o perigo de uma incompreensão: poder-se-ia interpretar facilmente este novo culto num sentido moralista: oferecendo a nossa vida, fazemos nós o culto verdadeiro.

Deste modo o culto com os animais seria substituído pelo moralismo: o próprio homem faria tudo sozinho, com o seu esforço moral. E esta não era certamente a intenção de São Paulo. 

Na comunhão com Cristo nos tornamos sacrifício vivo

Mas permanece a questão: então, como devemos interpretar este “culto espiritual”, razoável? Paulo supõe sempre que nós nos tornamos “um em Cristo Jesus” (Gal 3, 28), que morremos no Batismo (cf. Rm 1) e vivemos agora com Cristo, para Cristo e em Cristo.

Nesta união – e só assim – podemos tornar-nos n’Ele e com Ele “sacrifício vivo”, oferecer o “culto verdadeiro”.

Os animais sacrificados deveriam ter substituído o homem, o dom de si do homem, e não podiam. Jesus Cristo, na Sua doação ao Pai e a nós, não é uma substituição, mas traz realmente em Si o ser humano, as nossas culpas e o nosso desejo; representa-nos realmente, assume-nos.

Na comunhão com Cristo, realizada na Fé e nos Sacramentos, tornamo-nos, apesar de todas as nossas insuficiências, sacrifício vivo: realiza-se o “culto verdadeiro”. 

Esta síntese está no final do Cânone romano no qual se reza para que esta oferenda se torne rationabile – que se realize o culto espiritual.

A Igreja sabe que na Santíssima Eucaristia a autodoação de Cristo, o seu sacrifício verdadeiro se torna presente.

Mas a Igreja reza para que a comunidade celebrante esteja realmente unida com Cristo, seja transformada; reza para que nós próprios nos tornemos o que não podemos ser com as nossas forças: oferenda rationabile que apraz a Deus.

Assim a Oração Eucarística interpreta de modo justo as palavras de São Paulo. Santo Agostinho esclareceu tudo isto de modo maravilhoso no 10º livro da sua Cidade de Deus.

Cito apenas duas frases: “Isto é o sacrifício dos cristãos: mesmo sendo muitos, somos um só corpo em Cristo”.

“Toda a comunidade (civitas) remida, isto é, a congregação e a sociedade dos Santos, é oferenda a Deus mediante o Sumo Sacerdote que Se doou a Si mesmo”.[1]

III – Anunciar o evangelho é uma ação sacerdotal

Por fim, ainda uma breve palavra sobre o terceiro texto da Carta aos Romanos relativo ao novo culto. São Paulo diz assim no cap. 15:

A graça que me foi concedida por Deus, de ser o ministro (“hierourgein”) de Cristo Jesus para os gentios, a serviço do Evangelho de Deus, a fim de que a oblação dos gentios se torne agradável, santificada pelo Espírito Santo (15, 15s).

Desejo realçar só dois aspectos deste texto maravilhoso a respeito da terminologia única das cartas paulinas. 

Antes de tudo, São Paulo interpreta como ação sacerdotal a sua ação missionária entre os povos do mundo para construir a Igreja universal. Anunciar o Evangelho para unir os povos na comunhão de Cristo ressuscitado é uma ação “sacerdotal”.

O apóstolo do Evangelho é um verdadeiro sacerdote, faz o que é o centro do sacerdócio: prepara o verdadeiro sacrifício. 

E depois o segundo aspecto: a meta da ação missionária é – podemos dizer – a liturgia cósmica: que os povos unidos em Cristo, o mundo, se tornem como tal glória de Deus, “oblação agradável, santificada no Espírito Santo”.

Sobressai aqui o aspecto dinâmico, o aspecto da esperança no conceito paulino do culto: a autodoação de Cristo implica a tendência a atrair todos à comunhão do seu Corpo, de unir o mundo.

Só em comunhão com Cristo, o homem exemplar, um com Deus, o mundo se torna assim como todos o desejamos: espelho do amor divino. Este dinamismo está sempre presente na Eucaristia – este dinamismo deve inspirar e formar a nossa vida. 

 

Excerto da Audiência Geral de 07/01/2009.

[1] 10, 6: CCL 47, 27ss.