Para esta XIII Sessão Pública das Pontifícias Academias, a Pontifícia Insigne Academia de Belas Artes e Letras dos Virtuosos no Panteão – que organiza neste ano o evento – escolheu como tema Universalidade da beleza: estética e ética em confronto.
Um significativo assunto para aprofundar a relação, ou melhor, o diálogo entre estética e ética, entre beleza e agir humano, diálogo tão necessário quanto é, por vezes, esquecido ou evitado.
Íntima conexão entre procura da beleza, da verdade e da bondade
A necessidade e a urgência de um renovado diálogo entre estética e ética, entre beleza, verdade e bondade, nos são reapresentadas não só pelo atual debate cultural e artístico, mas também pela realidade cotidiana.
De fato, emerge dramaticamente em diversos níveis a cisão, e às vezes o contraste, entre as duas dimensões: a da procura da beleza, entendida, porém, de maneira redutiva como forma exterior, como aparência a perseguir a qualquer custo; e a da verdade e bondade dos atos executados para realizar uma certa finalidade.
Com efeito, uma busca da beleza que fosse alheia ou separada da procura humana da bondade e da verdade se transformaria, como infelizmente acontece, em mero esteticismo.
E, sobretudo para os mais jovens, num itinerário que desemboca no efêmero, no aparecer banal e superficial ou mesmo numa fuga rumo a paraísos artificiais que mascaram e ocultam o vazio e a inconsistência interior.
Essa procura aparente e superficial não teria com certeza uma inspiração universal, mas se revelaria inevitavelmente de todo subjetiva, se não francamente individualista, para terminar por vezes até mesmo na incomunicabilidade.
Salientei outras vezes a necessidade e o compromisso de um alargamento dos horizontes da razão, e nessa perspectiva é preciso também voltar a compreender a íntima conexão que liga a procura da beleza com a da verdade e da bondade.
Uma razão que pretendesse despojar-se da beleza acabaria diminuída, como também uma beleza privada de razão se reduziria a uma máscara vazia e ilusória.
No encontro com o clero da Diocese de Bressanone, em 6 de agosto, dialogando precisamente sobre a relação entre beleza e razão, fiz notar que devemos visar a uma razão muito ampliada, na qual coração e razão se encontrem, beleza e verdade se toquem.
Se esse compromisso vale para todos, vale mais ainda para o crente, para o discípulo de Cristo, chamado pelo Senhor a “prestar contas” a todos da beleza e da verdade de sua própria fé.
O Evangelho de Mateus no-lo recorda, ao lermos o apelo de Jesus a seus discípulos: “Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5, 16).
Note-se que no texto grego se fala de kalà erga, de obras ao mesmo tempo belas e boas, porque a beleza das obras manifesta e exprime, numa excelente síntese, a bondade e a verdade profunda do gesto, como também a coerência e a santidade de quem o efetiva.
A beleza das obras de que nos fala o Evangelho remete para uma outra beleza, verdade e bondade que somente em Deus tem sua perfeição e sua fonte última.
Bondade e eficácia da “via pulchritudinis”
Nosso testemunho, portanto, deve nutrir-se dessa beleza, nosso anúncio do Evangelho deve ser percebido na sua beleza e novidade, e para isso é preciso saber comunicar com a linguagem das imagens e dos símbolos.
Nossa missão cotidiana deve tornar-se transparência eloquente da beleza do amor de Deus, para atingir eficazmente os nossos contemporâneos, muitas vezes distraídos e absorvidos pelo clima cultural.
Clima este nem sempre propenso a acolher uma beleza em plena harmonia com a verdade e a bondade, mas sempre desejosos e nostálgicos de uma autêntica beleza, não superficial e efêmera.
Isso veio à tona também durante o recente Sínodo dos Bispos, convocado para refletir sobre o tema A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja.
Diversas intervenções puseram em evidência o valor perene de um “belo testemunho” para o anúncio do Evangelho, sublinhando a importância de saber ler e olhar com atenção a beleza das obras de arte, inspiradas pela Fé e promovidas pelos crentes, para descobrir aí um itinerário especial que aproxima de Deus e de sua Palavra.
Depois, na Mensagem conclusiva, dirigida pelos padres sinodais a todos os fiéis, se insiste na bondade e na eficácia da via pulchritudinis, um dos possíveis itinerários, quiçá o mais atraente e fascinante, para compreender e chegar a Deus.
No mesmo documento recorda-se a Carta aos Artistas, do meu venerável Predecessor, o Servo de Deus João Paulo II, que convidava a refletir sobre o íntimo e fecundo diálogo entre a Sagrada Escritura e as diversas formas artísticas, do qual surgiram inúmeras obras-primas.
Gostaria agora de sugerir que se retome aquela Carta, publicada há dez anos, e se faça dela objeto de uma renovada reflexão sobre a arte, sobre a criatividade dos artistas e sobre o fecundo, ainda que problemático, diálogo entre estes e a Fé cristã, vivida na comunidade dos fiéis.
Dirijo-me de modo particular a vós, caros Acadêmicos e Artistas, porque vossa tarefa, vossa missão é precisamente esta: suscitar admiração e desejo do belo, formar a sensibilidade das almas e alimentar a paixão por tudo quanto é autêntica expressão do talento humano e reflexo da Beleza divina.