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Palavra dos Pastores


A Igreja pertence a Cristo
 
AUTOR: REDAÇÃO
 
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O presbítero é o representante do povo perante Deus, mas não é escolhido pela comunidade, senão pelo próprio Deus. Somos sacerdotes em Cristo, único e supremo Pontífice
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Dom Benedito Beni dos Santos
Bispo Emérito de Lorena

Irmãos e irmãs, iluminados pela Palavra de Deus que acabamos de ouvir, façamos a nossa reflexão sobre três pontos: a Igreja como edifício espiritual (segunda leitura); a vocação aos ministérios (primeira leitura); e a festa litúrgica de hoje, a celebração da Cátedra de São Pedro (Evangelho).

A Igreja não nasceu do povo, mas de Deus

O Antigo Testamento usa a expressão Qahal Javé para indicar a assembleia litúrgica de Israel, o povo reunido para prestar culto a Deus. Esta expressão do Antigo Testamento serviu de inspiração para a compreensão da Igreja como edifício espiritual, registrada no pequeno trecho da Carta aos Efésios que ouvimos na segunda leitura.

Dom Beni impõe a mãos sobre um dos ordenandos.jpg

Quem é enviado em missão não
está sozinho: Deus o acompanha

Dom Beni impõe a mãos
sobre um dos ordenandos

Toda construção possui um alicerce, e o edifício espiritual da Igreja tem como fundamento a confissão de fé dos Apóstolos, registrada nos Evangelhos e em todo o Novo Testamento, e interpretada de forma contínua pela Tradição viva da Igreja. Esse edifício possui também paredes, que são todos os batizados. Essas paredes estão ligadas às colunas fortes dos ângulos e, sobretudo, à pedra angular que é Jesus Cristo.

Para não perder sua identidade, a Igreja precisa estar intimamente ligada a Cristo, pela fé, pelo amor, pela esperança, pela vida de graça. A vida de Jesus, sua palavra, seus gestos, seus atos, suas opções, são normativas para a Igreja em toda a sua História.

Deste primeiro ponto da nossa reflexão, já podemos tirar uma conclusão para a nossa vida cristã: a Igreja é uma realidade maravilhosa. Ela nasceu não de baixo, nasceu do alto; nasceu não do povo, mas de Deus. Por isso mesmo, a Carta aos Efésios, que ouvimos na segunda leitura chama a Igreja de família de Deus.

Chamado, escolha e missão na vocação para os ministérios

A Igreja possui diversos ministérios. Os principais são aqueles que têm origem no Sacramento da Ordem: o dos Bispos, o dos presbíteros e o dos diáconos. E todo ministério tem sua origem numa vocação, realidade misteriosa e profunda que pode ser dividida em três etapas: a escolha, o chamado e a missão.

A escolha, como mostra a primeira leitura desta Missa, é feita segundo o eterno e misterioso desígnio de Deus: Jeremias foi escolhido para ser profeta já no ventre de sua mãe, antes do seu nascimento.

A segunda etapa é o chamado. Ele pode chegar através de um sinal exterior, como o testemunho de um amigo, o convite de um sacerdote, ou, sobretudo, pela vida de fé de uma família. Mas quando esse chamado chega, a graça age juntamente no coração da pessoa, para que ela possa responder adequadamente. Por isso mesmo, Cristo afirmou no capítulo sexto do Evangelho de São João: “Ninguém pode vir a Mim se o Pai, que Me enviou, não o atrair” (6, 44).

A graça da vocação consiste, portanto, numa atração por Cristo, e o Evangelho de São Marcos nos dá disto exemplo bem completo. A primeira coisa que Jesus faz quando inicia o seu ministério na Galileia é reunir discípulos. Ele chama André, Simão Pedro, Tiago e João, e os quatro imediatamente deixam tudo – a barca de pesca, as redes, o pai – para seguirem Jesus, porque se sentem atraídos por Ele.

À semelhança dos primeiros Apóstolos, os diáconos que vão ser em breve ordenados presbíteros sentiram também o chamado de Cristo e O seguiram porque sentiram essa mesma atração.

A terceira etapa é a missão. Vocação e missão são inseparáveis, como as duas faces da mesma moeda. Deus chama sempre para conferir uma missão. No Antigo Testamento, convocou Jeremias para ser profeta das nações; no Novo Testamento, Cristo dirige-Se aos Apóstolos e lhes dá uma missão. Chama André e Pedro, que eram pescadores, e lhes diz: “Vinde após Mim; Eu vos farei pescadores de homens” (Mc 1, 17). Pouco adiante, viu Tiago e João, filhos de Zebedeu, que estavam consertando as redes, e chamou-os também (cf. Mc 1, 19) para a missão de anunciar o Evangelho da salvação a todas as gentes.

Ninguém pode apresentar méritos para ser ordenado

Quem é enviado em missão não está sozinho: Deus o acompanha.

Conforme vimos na primeira leitura, Ele convoca Jeremias para a missão de profeta dizendo-lhe: “Eu estarei contigo” (Jr 1, 8). No Novo Testamento, o Cristo ressuscitado envia os Apóstolos e lhes diz: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20). O Evangelho de São Marcos termina de um modo muito bonito. Depois de narrar a Ascensão do Senhor, ele afirma que os Apóstolos partiram em missão, e o Senhor que tinha subido ao Céu “cooperava com eles” (16, 20).
Irmãos e irmãs, a missão não é uma obra simplesmente humana. É uma obra divino-humana. E os ordenandos desta manhã foram chamados para serem sacerdotes do Deus Altíssimo.

A Carta aos Hebreus – o texto que trata oficialmente do sacerdócio de Cristo no Novo Testamento – dá duas definições de sacerdote. Primeira: o sacerdote é o representante do povo perante Deus; é aquele que oferece preces, sacrifícios pelos pecados do povo. Mas é necessário prestar muita atenção neste ponto: o sacerdote é o representante do povo perante Deus, mas não é escolhido pela comunidade, senão pelo próprio Deus. Ninguém tem direito de ser sacerdote; ninguém pode apresentar méritos para ser sacerdote.

Eu sempre me comovo ao ler a introdução da Segunda Carta de São Paulo a Timóteo. Paulo se encontra na prisão e lembra-se do dia em que impôs as mãos sobre a cabeça de Timóteo para ele tornar-se sucessor dos Apóstolos, tornar-se sacerdote. E Paulo então lhe escreve: “Exorto-te a reavivar o dom espiritual que Deus depositou em ti pela imposição das minhas mãos” (1, 6). E continua: “Deus nos salvou e chamou para a santidade, não em atenção às nossas obras, mas em virtude do seu desígnio, da graça que desde a eternidade nos destinou em Cristo Jesus” (1, 9).

Ninguém, eu repito, tem direito de ser sacerdote, ninguém pode apresentar obras, méritos para ser sacerdote. É um dom inteiramente gratuito de Deus.

Somos sacerdotes em Cristo, único e perfeito Pontífice

E a segunda definição que a Carta aos Hebreus oferece dos sacerdotes é ainda mais profunda. O sacerdote é chamado pontífice, ponte que liga a humanidade a Deus, e neste sentido Cristo é o único e perfeito Sacerdote. Por isso a Carta aos Hebreus O chama de Sumo Sacerdote. E de fato, na Cruz, Cristo realizou aquilo que os sacerdotes antigos procuravam realizar com seus sacrifícios sem consegui-lo: a perfeita reconciliação da humanidade com Deus.

Somos, portanto sacerdotes em Cristo. Ele é o único, é o perfeito Sacerdote. Nós participamos do seu sacerdócio. E daqui a pouco haverá neste templo um grande silêncio. Quando o Bispo, sucessor dos Apóstolos, repetindo o gesto a que se refere Paulo na Segunda Carta a Timóteo, impuser suas mãos sobre a cabeça de cada um destes ordenandos, um grande silêncio se fará neste templo. Porque agora é o momento do Espírito Santo.

Presença silenciosa e ativa do Espírito Santo

E é interessante observar que na História da salvação quase sempre a presença do Espírito é uma presença silenciosa, mas ativa.

Narra o Livro do Gênesis que no início da criação o Espírito, à semelhança de uma grande ave, pairava nas alturas. Mas essa presença silenciosa do Espírito aquecia toda a criação para que dela surgisse a vida. Também no Batismo de Jesus a presença do Espírito é silenciosa, mas ativa. A presença do Espírito em forma corpórea de uma pomba mostra para todo o povo que Jesus é o Cristo, o Messias, o Filho de Deus.

Igualmente silenciosa e ativa é a presença do Espírito na ordenação sacerdotal. O Espírito unge interiormente a pessoa para que ela possa configurar-se a Cristo, Sumo Sacerdote, agir in persona Christi capitis, na pessoa de Cristo que é a Cabeça da Igreja. O Espírito faz com que quem é ordenado sacerdote se torne, sacramentalmente, outro Cristo.

Por isso mesmo, na celebração da Eucaristia, ele vai poder dizer sobre o pão e o vinho: “Isto é o meu Corpo, que será entregue por vós. Este é o cálice do meu Sangue, o Sangue da nova e eterna Aliança, que será derramado por vós”. E no Sacramento da Reconciliação ele vai poder dizer: “Eu te absolvo dos teus pecados”.

Na celebração da Eucaristia o sacerdote toma o pão e o vinho em suas mãos e dá graças. Irmãos e irmãs, o dom do sacerdócio é tão grande, é tão sublime que cada dia o sacerdote deve dar graças a Deus por esse dom. Dar graças por esse dom pertence – podemos dizer – à espiritualidade de cada sacerdote. Cada vez que ele celebra a Eucaristia e dá graças a Deus pelo dom do sacerdócio, ele está reavivando, como pede Paulo a Timóteo, o dom de Deus que recebeu pela imposição das mãos do Bispo, sucessor dos Apóstolos.

A barca da Igreja não é nossa, mas de Cristo

E agora uma breve reflexão sobre a festa litúrgica de hoje: a Cátedra de São Pedro, o principal Apóstolo de Cristo, cujo sucessor é o Bispo de Roma, o Santo Padre.

Vista da Basílica, com os ordenandos em primeiro plano.jpg

 Somos, portanto sacerdotes em Cristo. Ele é o único, é o perfeito sacerdote

Vista da Basílica, com os ordenandos em primeiro plano e parte dos concelebrantes
ocupando as fileiras centrais

A cátedra é o símbolo do poder de ensinar, não as próprias opiniões, mas a verdade revelada por Deus e interpretada segundo a Tradição viva da Igreja. O Papa Bento XVI, quando tomou posse da cátedra de sua diocese em Roma, na Basílica de São João de Latrão, afirmou: “Aquele que se senta na Cátedra de Pedro deve recordar as palavras que o Senhor disse a Simão Pedro durante a Última Ceia: ‘e tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos'”.

Vamos, pois, na celebração desta Eucaristia, rezar pelo Papa Francisco, para que ele, com alegria, com fidelidade, cumpra essa missão que Cristo lhe confiou: confirmar toda a Igreja na fé.

Mas quero encerrar esta nossa reflexão recordando ainda as palavras solenes do Evangelho: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16, 18). Esta expressão de Jesus “a minha Igreja” serviu de inspiração ao Papa Bento XVI para que no final do seu pontificado ele proclamasse, melhor ainda, ele gritasse bem alto na Praça de São Pedro: “A barca da Igreja não é minha, não é nossa, mas é de Cristo. E o Senhor não a deixa afundar” (Audiência geral, 27/2/2013).

Santa Teresa de Jesus, no final de sua vida, agradecia a Deus por morrer filha da Igreja. Devemos cada dia agradecer a Deus por sermos filhos da Igreja de Jesus Cristo, “a minha Igreja”, como disse Ele. Amém. Transcrição da homilia pronunciada na cerimônia de ordenação presbiteral de 22/2/2016 – Basílica de Nossa Senhora do Rosário, Caieiras (SP)