Evangelho
1Quando passou o sábado, Maria Madalena e Maria, a mãe de Tiago, e Salomé, compraram perfumes para ungir o corpo de Jesus. 2E bem cedo, no primeiro dia da semana, ao nascer do sol, elas foram ao túmulo.
3E diziam entre si: “Quem rolará para nós a pedra da entrada do túmulo?”. 4Era uma pedra muito grande. Mas, quando olharam, viram que a pedra já tinha sido retirada. 5Entraram, então, no túmulo e viram um jovem, sentado ao lado direito, vestido de branco. E ficaram muito assustadas.
6Mas o jovem lhes disse: “Não vos assusteis! Vós procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou. Não está aqui. 7Vede o lugar onde O puseram. Ide, dizei a seus discípulos e a Pedro que Ele irá à vossa frente, na Galileia. Lá vós O vereis, como Ele mesmo tinha dito”(Mc 16, 1-7).
I – Contraste entre derrota e vitória
Concluída a Quaresma, período dedicado à consideração das nossas misérias e ao pedido de perdão, e encerradas as cerimônias da Paixão do Senhor, começa no Sábado Santo o triunfal crescendo de alegria próprio à Vigília Pascal.
A cerimônia dessa noite é a mais bela de todo o ciclo litúrgico.
Ela começa fora do recinto da igreja, sem nenhuma iluminação, simbolizando as trevas do pecado que dominavam o mundo antes da Redenção, bem como as que invadiram a Terra depois da morte de Nosso Senhor, o momento mais trágico da História da humanidade.
À medida que o rito se desenvolve, a escuridão inicial vai sendo rasgada pelo fogo sagrado, símbolo da Ressurreição.
Esta suplanta e faz esquecer tudo aquilo que ficou para trás, a ponto de ser-nos necessário um esforço para recordarmos as penitências feitas durante a Quaresma ou o ambiente trágico próprio à Sexta-Feira Santa.
A Vigília Pascal comemora o momento misterioso e augusto no qual Cristo venceu a morte, cujas circunstâncias exatas só nos serão desvendadas no dia em que a humanidade, reunida no Vale de Josafá, conhecer em minúcias – minuto a minuto, segundo a segundo – tudo quanto se passou ao longo dos séculos com toda e qualquer criatura humana ou angélica.
Para Deus tudo é presente
A marcada contraposição entre tragédia e triunfo, que caracteriza a Liturgia do Sábado Santo, encontra seu sentido mais profundo num outro contraste, infinito este: a diferença entre o inteligir divino e o humano.
Deus abarca num simples olhar de sua divina Inteligência o conjunto dos acontecimentos da História e da Eternidade, pois para Ele tudo é presente.1
O homem, entretanto, é dotado de um intelecto discursivo, incapaz de ver num só lance o passado, o presente e o futuro, como sucede com o Criador.
Tendo sido criados no tempo, analisamos os eventos conforme eles se apresentam, e influenciados pelas impressões recebidas no momento, facilmente erramos na sua avaliação.
Assim, podemos reputar como um fracasso determinado acontecimento que Deus considera como um triunfo, pois vê simultaneamente a vitória que dele há de advir.
Consideremos nessa perspectiva a Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor.
Fracasso aparente do Divino Mestre
Os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo levaram Jesus ao tribunal de Pilatos, o qual procurava esquivar-se de pronunciar a sentença de morte, por não ver n’Ele crime algum.
A multidão, porém, exigia sua condenação, chegando ao cúmulo de preferir que o magistrado romano libertasse o infame Barrabás.
O Divino Redentor foi então revestido com o manto de irrisão, flagelado, coroado de espinhos e submetido às piores humilhações.
Recebeu cusparadas e bofetadas no rosto e, estando já quase sem forças, teve de carregar às costas a Cruz na qual haveria de ser imolado.
A certa altura do percurso, os soldados obrigaram Simão de Cirene a ajudá-Lo a transportar o pesado Madeiro até o alto do Calvário, onde O crucificaram.
Pregado na Cruz, sofreu os insultos dos transeuntes, que diziam: “Tu que destróis o templo e o reconstróis em três dias, salva-Te a Ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da Cruz!” (Mt 27, 40).
Tudo parecia perdido para o Mestre que viera trazendo uma doutrina nova dotada de potência. Provara ser o Messias, e seu povo O rejeitara, bradando: “Crucifica-O, Crucifica-O!” (Jo 19, 6).
Era o Filho de Deus e estava sendo executado como um malfeitor, entre dois ladrões. Os sumos sacerdotes, junto com os escribas e os anciãos, zombavam dele, dizendo:
A outros salvou, a Si mesmo não pode salvar! É rei de Israel: desça agora da Cruz e acreditaremos n’Ele. Confiou em Deus; que O livre agora se é que O ama! Pois Ele disse: “Eu sou Filho de Deus” (Mt 27, 42-43).
Sob o prisma meramente humano, como não concluir que o Divino Mestre havia fracassado da forma mais completa?
Esses fatos, porém, não refletiam a realidade no que ela tem de mais essencial.
Ingratidão dos nossos primeiros pais
Tendo como fundo de quadro que a infinita Inteligência de Deus tudo contempla como em presente, acompanhemos o magnífico panorama da História Sagrada que nos é apresentado pelas leituras da Vigília Pascal.
Na primeira delas (Gn 1, 1-2, 2), narra-se a criação do homem, que Deus quis assumir como filho dando-lhe em herança um destino eterno: o Céu. Para isso, formou seu corpo do pó da terra e o animou com um sopro de vida que
transparece através de sua carne imaculada, irradia dos seus pés à sua fronte real e nos leva a admirar, em sua virginal beleza, o duplo desabrochar da graça e de uma natureza perfeita.2
Colocou-o, em seguida, no paraíso de delícias que havia preparado para ele, e passou a tratá-lo com uma “santa familiaridade, a qual não é ainda a união bem-aventurada do Céu, mas a prepara, atraindo a alma para as coisas do alto”.3
O demônio, porém, tomado de inveja, conseguiu induzir o homem a pecar. E a ingratidão dos nossos primeiros pais abriu para a humanidade uma era de escravidão.
Na aparência, Deus havia sido derrotado.
Mas, enquanto imaginamos Satanás comemorando com gargalhadas frenéticas seu aparente triunfo, podemos nos perguntar: “Terá sido realmente vencido Aquele que fez todas as coisas e poderia ter criado infinitos universos, com infinitos Adões e Evas, Aquele que tem o poder de a qualquer momento fazer tudo voltar ao nada?”
A morte de Cristo destroçou o império de Satanás
As leituras seguintes dessa noite percorrem a história do povo eleito durante esse período.
Lembram a aliança feita por Deus com Abraão (Gn 22, 1-18); narram a libertação da escravidão no Egito (Ex 14, 15-15,1); anunciam a vinda do Santo de Israel (Is 54, 5-14 e Is 55, 1-11); recriminam o povo judeu por ter abandonado a fonte da sabedoria (Br 3, 9-15.32-4,4) e prometem a Israel “um coração novo e um espírito novo” (Ez 36, 16-17a.18-28).
Vão assim preparando os nossos corações para melhor compreender o acontecido na plenitude dos tempos, quando as divinas mãos cravadas no Lenho rasgaram o decreto de condenação lançado pelo Pai e abriram as portas do Paraíso eterno.
A morte do Redentor destroçou o império de Satanás. Em virtude dela, “Deus anulou o documento que, por suas prescrições, nos era contrário e o eliminou, cravando-o na Cruz” (Col 2, 14).
O supremo Sacrifício de Cristo trouxe-nos a vida sobrenatural e a eterna. Pelo Batismo, aqueles que caminhavam nas sombras da morte ficam limpos do pecado e recebem o penhor da ressurreição, no final dos tempos.
“Ó Deus, quão estupenda caridade vemos no vosso gesto fulgurar; não hesitais em dar o próprio Filho, para a culpa dos servos resgatar” – canta a Igreja, no Precônio Pascal.
Éramos servos infiéis e Deus, para nos remir, sacrificou seu próprio Filho. Bendito pecado de Adão que nos mereceu um tão grande Redentor!
Se não fosse a morte e Ressurreição de Cristo, nós seríamos eternos prisioneiros do anseio de ver a Deus face a face, sem jamais o conseguir.
Passar a eternidade nesse desejo de contemplar a Deus sem nunca poder realizá-lo é o maior tormento para a alma humana! Nisso consiste precisamente a pena de dano no inferno, sofrimento mais terrível que o causado pelo fogo.
De sinal de ignomínia a símbolo de glória
Na Vigília do Domingo da Ressurreição, o triunfo de Jesus sobre o pecado enche de alegria a Igreja e os corações de todos os fiéis. Os sinos repicam, o altar se ilumina, e o órgão ressoa enquanto a assembleia canta jubilosa: “Gloria in excelsis Deo”.
“Ó noite em que Jesus rompeu o inferno, ao ressurgir da morte vencedor”, proclama o Precônio Pascal. Quando o demônio parecia ter derrotado Nosso Senhor, Este o venceu definitivamente, como Mestre e como Deus.
A cruz, outrora sinal de ignomínia, transformou-se em símbolo de glória e passou a ornar as coroas dos reis e a encimar as torres das catedrais.
E o que aconteceu com aqueles que julgavam ter vencido o Nazareno? Alguns, tocados pela graça, pediram o Batismo (cf. At 2, 37-41); sobre outros caiu a terrível tragédia da destruição de Jerusalém, por Ele predita.
E os príncipes dos sacerdotes, escribas e fariseus passaram para a História marcados por um sinete de opróbrio e rejeição.
O triunfo de Nosso Senhor vai se manifestar de maneira toda especial em seus discípulos.
De fugitivos, reagrupam-se em torno da Virgem Santíssima e começam a percorrer as nações, pregando com destemor o Evangelho. Levantam por todas as partes o estandarte da Cruz, desafiando o paganismo e conquistando o mundo para Cristo.
Christus vincit! Christus regnat! Christus imperat! Eis o resultado do grande contraste que comemoramos na noite da Vigília Pascal.
A Morte e Ressurreição de Jesus enchem de gáudio as almas dos fiéis, ao tornar patente quão completa foi a vitória do Bem.
II – A manhã do Domingo da Ressurreição
Nenhum dos quatro Evangelistas descreve o momento exato da Ressurreição.
São Marcos, ao qual está dedicado o presente ano litúrgico, refere-nos apenas que, após a morte de Jesus, José de Arimateia envolveu o seu sagrado Corpo num pano de linho e o depositou no sepulcro (cf. Mc 15, 46).
E entra logo a seguir na narração do episódio evangélico que hoje comentamos.
Piedoso zelo das Santas Mulheres
1Quando passou o sábado, Maria Madalena e Maria, a mãe de Tiago, e Salomé, compraram perfumes para ungir o corpo de Jesus. 2E bem cedo, no primeiro dia da semana, ao nascer do sol, elas foram ao túmulo.
Devotamente preocupadas em embalsamar o Corpo do Redentor, uma vez que não haviam tido tempo suficiente de fazê-lo na sexta-feira antes de pôr-se o sol, dirigiram-se as três Santas Mulheres para o túmulo no primeiro dia da semana.
“Bem cedo”, esclarece o Evangelista, como quem quer acentuar o ardente zelo que as movia.
Como tantas vezes acontece no Evangelho, há nessa expressão tão breve, de apenas duas palavras, uma bela lição para nós: nossos deveres para com Deus, nós os devemos cumprir sem tardança nem protelações desnecessárias.
3E diziam entre si: “Quem rolará para nós a pedra da entrada do túmulo?”. 4a Era uma pedra muito grande.
Os sepulcros daquele tempo, bem diferentes dos atuais, eram cavados na rocha e fechados com uma grande lápide circular encaixada entre dois trilhos também de pedra, um embaixo e outro em cima.
Quem quisesse entrar neles, precisava correr essa lápide que era lacrada com outros materiais.
Ora, havia para aquelas mulheres um obstáculo maior do que aquela pedra: eram os guardas do Templo postados ali, a mando dos chefes da sinagoga. Eles não são mencionados por São Marcos, mas sim por São Mateus.
Preocupação dos sumos sacerdotes e insegurança dos discípulos
Narra o primeiro Evangelista:
No dia seguinte, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus dirigiram-se todos juntos à casa de Pilatos.
E disseram-lhe: Senhor, nós nos lembramos de que aquele impostor disse, enquanto vivia: Depois de três dias ressuscitarei.
Ordena, pois, que seu sepulcro seja guardado até o terceiro dia. Os seus discípulos poderiam vir roubar o corpo e dizer ao povo: “Ressuscitou dos mortos”. E esta última impostura seria pior que a primeira (Mt 27, 62-64).
Pilatos, sempre na sua atitude espúria de homem incapaz de tomar decisões em favor do bem, não quis mandar soldados romanos para custodiar o túmulo.
Entretanto, permitiu que os sumos sacerdotes ali postassem os seus. “Foram, pois, e asseguraram o sepulcro, selando a pedra e colocando guardas” (Mt 27, 66).
Enquanto isso, os discípulos de Jesus pareciam alheios à previsão feita meses antes pelo Divino Mestre:
O Filho do Homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas. Eles O condenarão à morte.
E O entregarão aos pagãos para ser exposto às suas zombarias, açoitado e crucificado; mas ao terceiro dia ressuscitará (Mt 20, 19).
Teriam esquecido eles o anúncio da Paixão, três vezes repetido, conforme narram os Sinópticos?4 Não parece provável.
Porém, como afirma São João, eles “ainda não haviam entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dentre os mortos” (Jo 20, 9).
No mesmo sentido, comentando a Ressurreição de Cristo em sua obra Jesus de Nazaré, Bento XVI lembra o acontecido com Pedro, Tiago e João na descida do monte da Transfiguração. Eles
refletiam preocupados sobre a palavra de Jesus, segundo a qual o Filho do Homem havia de “ressuscitar dos mortos”.
E perguntavam-se entre si que queria dizer “ressuscitar dos mortos” (cf. Mc 9, 9-10). Isso de fato, em que consiste?
Os discípulos não o sabiam; só o encontro com a realidade lhes permitira aprendê-lo.5
“Ele ressuscitou; não está aqui”
4bMas, quando olharam, viram que a pedra já tinha sido retirada. 5Entraram, então, no túmulo e viram um jovem, sentado ao lado direito, vestido de branco. E ficaram muito assustadas. 6Mas o jovem lhes disse: “Não vos assusteis! Vós procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou. Não está aqui. 7aVede o lugar onde O puseram”.
Se as Santas Mulheres, chegando ao sepulcro, tivessem encontrado apenas o túmulo vazio, poderiam pensar que fora roubado o corpo do Divino Mestre. Entretanto, havia ali um jovem vestido de branco, o qual lhes disse: “Não vos assusteis!”.
Naquele tempo acreditava-se que quem via um anjo morria logo em seguida. Por isso, ele começa por tranquilizá-las, e só depois lhes anuncia o acontecido: “Vós procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou. Não está aqui”.
Onde se encontrava naquela hora a guarda posta pelos fariseus e príncipes dos sacerdotes para vigiar o sepulcro? São Mateus nos explica o acontecido:
E eis que houve um violento tremor de terra: um anjo do Senhor desceu do Céu, rolou a pedra e sentou-se sobre ela.
Resplandecia como relâmpago e suas vestes eram brancas como a neve. Vendo isto, os guardas pensaram que morreriam de pavor (Mt 28, 2-4).
E depois fugiram, para relatar aos superiores o ocorrido.
Afirmação da primazia de Pedro
7bc“Ide, dizei a seus discípulos e a Pedro que Ele irá à vossa frente, na Galileia. Lá vós O vereis, como Ele mesmo tinha dito”.
Há neste versículo um pormenor muito importante: o anjo manda anunciar o acontecido “a seus discípulos e a Pedro”.
Fazendo essa menção explícita ao Príncipe dos Apóstolos, o anjo mostra o quanto era já reconhecido nesses primórdios da Igreja o seu primado.
Ora, Simão, filho de João, havia prevaricado. Três vezes negara o Mestre, na casa do sumo sacerdote. Não teria ele, com isso, perdido a primazia sobre os Doze?
Entretanto, na mente de Deus estava presente a fidelidade que o Primeiro Papa haveria de Lhe manifestar, e em função dela era tratado pelo anjo.
“A menção a São Pedro nesta passagem”, comenta Fillion, “destinava-se a mostrar ao Apóstolo que Jesus havia perdoado inteiramente sua recente falta”.6
III – Maria e a Ressurreição
Em seus relatos sobre a Ressurreição nada dizem os Evangelistas a respeito de Maria Santíssima. Entretanto, não é possível imaginar a Mãe do Redentor ausente desses acontecimentos.
Enquanto o corpo de Jesus repousava no sepulcro, os Apóstolos certamente sentiam, por um misterioso instinto, que a história do Homem Deus não podia estar concluída com aquela morte, mas não chegavam a imaginar a anunciada Ressurreição.
Como supor, com efeito, que Jesus aceitaria o desafio lançado pelo mau ladrão: “Se és Cristo, salva-Te a Ti mesmo” (Lc 23, 39)?
Porque se o fato de um vivo ressuscitar um morto – como Ele fizera com Lázaro – já resultava inteiramente incomum, quanto mais o seria alguém sair dos abismos da morte pelas próprias forças, dizendo ao seu corpo: “Levanta-te!”.
A Santíssima Virgem, porém, não tinha a esse respeito a menor fímbria de dúvida. Na noite do Sábado Santo, afirma Plinio Corrêa de Oliveira,
somente Nossa Senhora, em toda a face da Terra, teve uma Fé completa e sem sombra de dúvida na Ressurreição.
[…] A cada minuto que passava, de algum modo a espada da saudade e da dor penetrava ainda mais seu Coração Imaculado.
Mas, de outro lado, havia a certeza de uma grande alegria da vitória que se aproximava. Esta concepção A inundava de consolação e gáudio.
Dr. Plinio acrescenta que Nossa Senhora
representou nessa ocasião a Fé da Santa Igreja e, por assim dizer, sustentou o mundo, dando continuidade às promessas evangélicas, pois, se não houvesse Fé sobre a face da Terra, a Providência teria encerrado a História.
Maria foi a Arca da Esperança dos séculos futuros.
Ela teve em Si, como numa semente, toda a grandeza que a Igreja haveria de desenvolver ao longo dos séculos, todas as promessas do Antigo Testamento e todas as realizações do Novo; tudo isto viveu dentro da alma de Nossa Senhora.7
Para termos uma visão mais completa desse grandioso panorama, cabe lembrar que, segundo a opinião de renomados mariólogos, Cristo Sacramentado jamais deixou de estar presente em Maria Santíssima desde a Santa Ceia até a sua Assunção ao Céu.
Toda vez que Ela comungava, renovavam-se em seu coração as Sagradas Espécies, tornando-A um tabernáculo permanente da Eucaristia.8
Ora, estando Cristo realmente presente na Sagrada Hóstia, Nossa Senhora deve ter sentido de algum modo, em seu interior, a Alma e o Corpo de Jesus separarem-Se no momento da sua morte, enquanto a Divindade continuava unida a ambos.
Pois, como explica o Doutor Angélico,
tudo o que pertence a Cristo segundo seu próprio ser, pode ser atribuído a Ele enquanto existe em sua própria espécie e no Sacramento, a saber, viver, morrer, sofrer, ser animado e inanimado, etc.9
Esse fenômeno pungente e misterioso supera nossa capacidade de compreensão.
No Cenáculo, Maria Santíssima recebeu “o mesmo e verdadeiro Corpo de Cristo, que então era visto pelos discípulos sob a própria figura e era tomado na espécie do Sacramento”. Ele, afirma São Tomás,
não era impassível na forma em que era visto sob sua figura, muito pelo contrário estava preparado para a Paixão.
Por isso, nem era também impassível o Corpo que se entregava sob a espécie do Sacramento.10
Nossa Senhora havia comungado o Corpo de Cristo padecente, e tendo-O custodiado durante toda a Paixão, os sofrimentos do seu Divino Filho reproduziam-se simultaneamente de algum modo no seu interior.
E no mesmo momento em que Ele ressuscitava no Santo Sepulcro, ressuscitava também na Sagrada Hóstia presente em Maria.
Qual não terá sido o seu gáudio ao sentir misticamente em Si a Alma de Jesus unir-Se de novo ao Corpo, e Ele Se apresentar agora mais glorioso do que antes da morte?
Bem arquitetônico seria que nesse exato momento Nosso Senhor Lhe aparecesse fisicamente para consolá-La, pois Ela fora a Corredentora e compartilhara todos os sofrimentos da Paixão.
Em nossa época, na qual a impiedade parece ir tomando conta do mundo, devemos renovar nossa Fé na promessa feita por Cristo, de que jamais as forças do inferno prevalecerão contra a sua Igreja (cf. Mt 16, 18), e manter bem vivo na alma o anseio de sermos Santos, perfeitos e íntegros sob o ponto de vista moral e doutrinário.
Pois, para o Lumen Christi, tão belamente simbolizado pelo Círio Pascal, enxotar para o fundo dos infernos os demônios que hoje tentam a humanidade, basta haver um conjunto de fiéis, inteiramente unidos a Jesus e Maria, que peçam isso com verdadeiro afinco.
“Coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16, 33)! Façamos o propósito firme de tender à santidade, a fim de que o triunfo definitivo de Cristo, obtido pela sua Morte e Ressurreição, refulja gloriosamente em nossos dias.
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
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