No vasto teatro da criação, desde o macrocosmo até o microcosmo – o homem –, tudo orbita em torno de um eixo. Desse princípio derivam expressões correntes como “fora dos eixos”, “entrar nos eixos”, “manter-se nos eixos”. Que o mundo padece de uma crise fulcral – estando, em boa medida, “fora dos eixos” – e que urge uma intervenção divina para reconduzi-lo “aos eixos” é verdade que dispensa demonstração!

A parábola do banquete nupcial parece espelhar a desordem do mundo atual: uns não dão atenção ao convite do rei, outros espancam seus embaixadores e os matam, um homem penetra no recinto sem a veste apropriada.

Embora a função primária do alimento seja a manutenção da vida e da saúde física, ele possui, em um plano superior, a capacidade de fomentar o convívio humano e a prática da virtude. Na Sagrada Escritura, o Reino dos Céus é comparado inúmeras vezes a um banquete. E a Divina Providência quis que a nossa necessidade de alimento nos preparasse para o Banquete Eucarístico, no qual o próprio Jesus Se nos oferece como pão para sustento de nossas almas.

Durante milênios o Divino Artista trabalhou na restauração de sua obra-prima, desfigurada pela desobediência de nossos primeiros pais, preparando providencialmente as núpcias de seu Filho com a humanidade. Após a queda, em cuja raiz estava o fruto proibido (cf. Gn 2, 16-17), o Senhor educou o povo através de diversos sinais sensíveis, como o maná e os sacrifícios rituais. Na “plenitude dos tempos” (Ef 1, 10), quando a iniquidade chegou ao extremo de pretender eliminar o próprio Deus, Ele formou a Nova Eva, capaz de conceber o ­Verbo Eterno. É neste momento que, por intermédio de Maria Santíssima, a Mãe da Graça, a Trindade ofereceu aos batizados os frutos renovados da vida e da ciência divina.

Com a Eucaristia, Cristo franqueia aos filhos de Adão o “Pão da Vida” (Jo 6, 51), prefigurado pelo fruto da “árvore da vida” (Gn 3, 24) no Paraíso Terrestre e prometido ao vencedor no Apocalipse (cf. Ap 2, 7).

Na parábola, a veste nupcial designa a alva túnica batismal, que precisamos conservar sem mancha pela retidão de vida, pela prática das boas obras e pela observância dos Mandamentos. No banquete da Santa Missa, quando Cristo dá a Si próprio em alimento (cf. Mt 26, 26), recebemos as graças necessárias para alcançar tão elevada meta.

Cumpre, pois, aproximarmo-nos da Eucaristia com as devidas disposições, pois São Paulo adverte que comer indignamente a Carne de Cristo e beber indignamente seu Sangue é comer e beber a própria condenação (cf. I Cor 11, 27-29). Se o Sacramento do Altar for o centro de nossa existência, tudo voltará “aos eixos”: em primeiro lugar, a nossa alma e, em consequência, tudo o que com ela se relaciona na ordem do universo.