Pelo ano 30 de nossa era, Pôncio Pilatos governava a Judeia, Herodes a Galileia, e Filipe, seu irmão, a Itureia. Caifás era o sumo-sacerdote.
Deus parecia mudo em relação ao povo de Israel oprimido pelos romanos.
Então, nas margens do rio Jordão, surgiu um profeta pregando desassombradamente o batismo de penitência para a remissão dos pecados, preparando assim as almas para a vinda iminente do tão esperado Messias.
O encontro com Cristo
E o povo afluía em grande número para ouvir João Batista, “a voz do que clama no deserto”.
Entre seus discípulos, havia dois irmãos, Tiago e João, filhos de Zebedeu e Salomé, que moravam em Cafarnaum, à margem do lago de Tiberíades. Aguardavam todos o advento daquele que libertaria da opressão o Povo Eleito.
João – cujo nome, segundo Orígenes, significa “em quem está a graça” – era ainda muito jovem quando conheceu Nosso Senhor Jesus Cristo.
O próprio Evangelista narra singelamente o encontro decisivo de sua vida:
No dia seguinte, estava lá João [Batista] outra vez com dois dos seus discípulos. E, avistando Jesus que ia passando, disse: Eis o Cordeiro de Deus.
Os dois discípulos ouviram-no falar e seguiram Jesus. Voltando-se Este e vendo que o seguiam, perguntou-lhes:
— Que procurais?
Disseram-lhe:
— Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?
— Vinde e vede, respondeu-lhes Ele. Foram aonde Ele morava e ficaram com Ele aquele dia (Jo 1, 35-39).
O que lhes terá ensinado o Divino Mestre? Que graças extraordinárias não lhes terá concedido, a fim de compreenderem o mistério da Redenção? O fato é que esse celestial colóquio mudou suas vidas.
João e André foram, assim, os primeiros discípulos de Jesus. Logo se lhes juntaram outros companheiros de pesca: Simão, irmão de André, Tiago, irmão de João, e Filipe.
Único Apóstolo presente no Calvário
Nas bodas de Caná, presenciou João o primeiro milagre de Jesus. Provavelmente, terá sido nessa ocasião que ele conheceu Nossa Senhora.
Que impressão terá a Virgem Santíssima causado na alma do Apóstolo virgem? Bem podemos imaginar a enorme consonância que deve ter havido entre ambos.
Quem sabe teve Nossa Senhora, então, alguma previsão da cena aos pés da Cruz, quando o Divino Mestre lho daria como filho, e teria rezado por ele? São hipóteses.
A virgindade de João lhe atraíra a predileção do Divino Mestre. O discípulo amado esteve presente nos episódios culminantes da passagem do Verbo de Deus pela terra.
Presenciou, com Pedro e Tiago, a Transfiguração do Senhor no Monte Tabor. Na Santa Ceia, reclinou a cabeça sobre o Coração de Jesus, sendo considerado seu primeiro devoto.
Os mesmos três Apóstolos do Tabor foram chamados pelo Mestre para acompanhá-Lo na tremenda provação no Horto das Oliveiras, quando misteriosamente o Deus humanado foi procurar consolo nos discípulos, mas estes dormiam… O sono fora a fuga para a sua pouca fé.
Não entenderam como Aquele que ressuscitara Lázaro, multiplicara os pães, expulsara os vendilhões do Templo e andara sobre as ondas, agora, suava sangue de temor.
Curiosamente, dois dos principais acontecimentos da vida de Nosso Senhor – a Transfiguração e a Agonia no Horto –, presenciadas pessoalmente por João, não são relatadas por ele em seu Evangelho. Fazem-no os outros evangelistas.
Na hora da prisão de Jesus, é conhecida a reação dos seus discípulos: fugiram todos. Mas ele voltou e acompanhou de perto os padecimentos do Divino Redentor.
E na hora extrema estava ao pé da Cruz, lá recebendo a maior recompensa que alguém já teve na terra: foi-lhe dada por mãe a própria Mãe de Deus (Jo 19, 26-27). E, em sua pessoa, todos os católicos, até o fim do mundo, foram recebidos por Maria como filhos.
Que predileção por esse Apóstolo, o amado entre os amados!
Quando Maria Madalena comunicou aos Apóstolos a Ressurreição de Jesus, foi João o primeiro a chegar ao túmulo.
E o único a reconhecer o Divino Mestre quando apareceu na praia: “É o Senhor!”, exclamou ele (Jo 21,7).
Apologista da divindade de Jesus
Após a Ascensão do Senhor aos Céus, mudou-se para Éfeso, com Maria Santíssima. Desse convívio dulcíssimo e santo com Nossa Senhora, não nos deixou ele, infelizmente, nenhuma descrição.
Mas bem podemos imaginar o quanto a Mãe de Deus o iluminou a respeito dos divinos mistérios.
Escreveu seu Evangelho a pedido dos Bispos da Ásia, contra Cerinto e outros hereges.
São Tomás de Aquino realça o fato de que São Mateus e São Lucas tratam da Natividade do Senhor segundo a carne, enquanto São João passa em silêncio este aspecto, e começa sua narração demonstrando a divindade de Cristo.
Santo Agostinho comenta os símbolos dos Evangelistas. Os três primeiros são representados pelo leão, pelo homem e pelo touro, seres que andam sobre a terra. Isto porque estes se ocupam sobretudo do que fez Jesus Cristo em carne mortal.
Já São João é representado por uma águia, pois ele se eleva sobre as nuvens da debilidade humana – como a águia alça voo pelos ares – e vê a luz da verdade imutável com os olhos firmíssimos e penetrantes de sua alma, especialmente a divindade de Jesus Cristo.
Sobreviveu milagrosamente ao martírio, saindo incólume do tonel de óleo fervente onde fora jogado por ordem de Domiciano. Em seguida, foi desterrado para a Ilha de Patmos, onde escreveu o Apocalipse.
O próprio São João nos relata uma misteriosa frase de Nosso Senhor, a respeito de si mesmo:
Voltando-se Pedro, viu que o seguia aquele discípulo que Jesus amava (aquele que estivera reclinado sobre o seu peito, durante a ceia, e lhe perguntara: Senhor, quem é que Te há de trair?).
Vendo-o, Pedro perguntou a Jesus: Senhor, e este? Que será dele? Respondeu-lhe Jesus: Que te importa se Eu quero que ele fique até que Eu venha? Segue-me tu.
Correu por isso o boato entre os irmãos de que aquele discípulo não morreria. Mas Jesus não lhe disse: Não morrerá, mas: Que te importa se quero que ele fique assim até que eu venha?” (Jo 21, 20-23).
Por essa razão, apesar de constar que São João Evangelista faleceu idoso, no ano 68 depois da Paixão do Senhor, e foi sepultado próximo de Éfeso, alguns autores sustentam que ele está no Paraíso Terrestre, juntamente com Elias e Enoc, aguardando o momento de voltar a intervir na História.
Será real? Quem viver, verá…
Uma coisa, porém, é certa: o Discípulo amado, o Apóstolo virgem, o João de Maria Santíssima rezará a Ela por cada um de nós, se lhe pedirmos.
Revista Arautos do Evangelho, Ano XXV, nº 297, Setembro 2026
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