Aquele que passou a vida fazendo o bem (cf. At 10, 38) está agora travando as últimas lutas antes da Redenção. O ódio contra Ele alcança um auge, manifestado nesta Liturgia dominical com palavras adocicadas: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus” (Mt 22, 16). Os autores dessa artimanha são os fariseus que, ao enviarem seus discípulos para enredar Jesus em alguma contradição, aliam-se a seus inimigos políticos, os herodianos.

Os fariseus almejavam a libertação de toda ­autoridade civil sobre o povo eleito; os herodianos, ao contrário, haviam se acomodado à tributação romana. Jesus encontra-Se, assim, entre dois grupos que, a despeito de suas divergências, convergem no anseio de eliminá-Lo.

Ao apresentarem um problema de consciência a Nosso Senhor – “É lícito ou não pagar imposto a César?” (Mt 22, 17) –, buscam encurralá-Lo. Na visão farisaica, o imposto é devido a Deus, não a imperadores. Se Jesus defendesse o pagamento, incorreria em ódio popular, sendo reputado falso profeta; se o desaconselhasse, tornar-Se-ia réu de insurreição contra a autoridade romana.

A sutileza da pergunta, ocultada pela máscara da hipocrisia, exige uma resposta prodigiosamente perspicaz. A simplicidade divina se limita a pedir o objeto em litígio: “‘Mostrai-Me a moeda do imposto!’ Levaram-Lhe a moeda” (Mt 22, 19).

Naquela época, os romanos concediam aos povos subjugados o favor de cunhar as próprias moedas em cobre, apresentadas com figuras animais ou vegetais; no entanto, as moedas de prata – as únicas aceitas para o pagamento do tributo – circulavam em todo o império e ostentavam a efígie de César, coroada de louros.

A verdade dos fatos é a resposta perfeita de Nosso Senhor, pois se, em teoria, os fariseus repudiavam o imposto a César, na prática utilizavam sua moeda sem escrúpulos… Uma hipocrisia atrás de outra! A sentença definitiva do Divino Mestre ecoa pelos séculos: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 21).

Esse ensinamento divino cruzará os séculos, pois estabelece a necessária concórdia entre a ordem civil e a eclesiástica: ambas derivam de Deus e devem convergir para o bem comum, atendendo as necessidades espirituais e materiais da sociedade. Essa harmonia principia dentro de nós, pois levamos gravadas em nosso ser tanto a imagem de César, manifestada em nossas necessidades físicas, quanto a imagem de Deus, conforme revelado no início da criação: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1, 26).

Se choramos ao perder uma moeda valiosa, não deveríamos também lamentar quando desfiguramos a imagem de Deus cunhada em nossa alma? Bem sintetiza Santo Agostinho:

“Como César ­busca a sua imagem em sua moeda, assim Deus busca a sua em tua alma. ‘Dai a César’, disse, ‘o que é de César’. O que César te pede? Sua imagem. O que Deus te pede? Sua imagem. Porém, a de César está na moeda, a de Deus está em ti”.1 

Notas:


1 SANTO AGOSTINHO DE HIPONA. Sermão 113A, n.8.