Quem tem um projeto e se lança a realizá-lo guarda sempre uma certa ideia do resultado final. Durante a execução, o autor verifica constantemente se a obra aproxima-se de sua intenção original.
A essa regra de sabedoria prática não poderia escapar a Sabedoria Eterna ao nos criar, tendo por meta a nossa plena santificação. Mas em que consiste a santidade consumada? Na beatitude celeste, a qual é atingida precisamente por meio das oito bem-aventuranças proclamadas nesta Solenidade.
No momento em que nascemos, Deus como que nos entrega um “rascunho” de um quadro maravilhoso, o qual deverá ser completado ao longo das nossas vidas – ou mesmo após seu término, no Purgatório – até o acabamento perfeito.
Quem, na hora da morte, apresenta seu quadro inteiramente concluído é declarado “bem-aventurado” – a oito títulos – pelo Divino Juiz.
Por exemplo, os puros de coração chegarão à visão claríssima de Deus, promessa cumprida por Ele na vida eterna, mas já iniciada nesta vida.
Conforme explica São Tomás, “esses prêmios, de que o Senhor aqui trata, podem ser obtidos de dois modos, isto é, perfeita e consumadamente, e assim apenas na pátria; incoativa e imperfeitamente, e assim pelos que estão a caminho – in via. Por isso os Santos têm um certo começo daquela bem-aventurança”.1
Quem não atinge o nível dessa bem-aventurança específica não terá elevado “grau de visão”, conforme o lumen gloriæ. Na casa do Pai há muitas moradas: alguns verão mais perfeitamente, outros menos.
Segundo explana São Boaventura,2 a nossa natureza está deformada pela culpa, mas reformada pela graça, de modo que devemos purificá-la para subir a Deus.
O mesmo princípio se aplica às outras bem-aventuranças. Os aflitos – Jesus Se refere àqueles que sofrem aflição por amor a Deus, ou seja, a quem se aflige por vê-Lo ofendido, por não O ver amado como merece – serão consolados, nesta vida e na outra, pela confiança a toda prova.
O coração deles “repousa em Deus”. Nada os inquieta pois, como afirma Santo Agostinho, “criastes-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Vós”.3
Assim sendo, o Evangelho das bem-aventuranças nos estimula a impetrar a Deus, com o salmista: “Completai em mim a obra começada” (Sl 137, 8) e “Não me leveis na metade de meus dias” (Sl 101, 25).
Esse é o pedido que durante toda a nossa vida devemos fazer ao Divino Espírito Santo, por intercessão de Nossa Senhora.
Eis a realidade: em sua bondade infinita, o Criador nos propõe a cada instante a contribuição da sua graça, sendo por isso mesmo o verdadeiro Autor da nossa santificação.
A “obra de arte” espiritual que devemos completar antes de ser convocados a prestar contas é tanto obra sua quanto nossa. A nós cabe, simplesmente, deixar que o Divino Pintor use o “pincel” de nossa alma segundo sua santíssima vontade.
Novembro de 2026, nº 299
Outubro de 2026, nº 298
Setembro de 2026, nº 297
Quem são os Arautos do Evangelho?
Auxílio dos Cristãos
Músicas Natalinas