Neste domingo a Liturgia nos oferece um trecho do Evangelista São Mateus, no qual se narra um encontro entre Jesus Cristo e os fariseus. Não era a primeira vez que procuravam fazê-Lo cair em alguma armadilha. Apesar de tantas censuras recebidas, apresentam-se novamente diante do Redentor para Lhe perguntar: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” (Mt 22, 36).

São Tomás de Aquino comenta que, além de caluniosa, a questão era presunçosa, pois “não se deveria perguntar sobre o grande quem não cumpriu o mínimo”.1 Nosso Senhor então responde: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento!’ Esse é o maior e o primeiro mandamento” (Mt 22, 37-38). Acerca disso, comenta o Doutor Angélico:

“Deus deve ser amado como o primeiro amável, já que Ele mesmo é o primeiro fim, ao passo que quaisquer outras coisas são amadas por causa do fim. Portanto, quem ama a Deus como fim, ama-O de todo o coração”.2

As palavras seguintes do Salvador constituem mais do que uma interpretação da Lei; trata-se da revelação do próprio Ser de Deus. Jesus não somente une as tábuas da Lei ao profetismo, mas estabelece a caridade como o cerne da vida espiritual: “‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’. Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos” (Mt 22, 39-40). A respeito disso, o Aquinate3 esclarece que esse “a ti mesmo” não se identifica com o egoísmo, mas indica que se deve amar os outros como a si mesmo em virtude do amor a Deus. O Papa Bento XVI4 aprofunda essa perspectiva na Encíclica Deus caritas est, ensinando que o amor a Deus e o amor ao próximo são no fundo duas faces da mesma moeda, inseparáveis e complementares. Quem ama verdadeiramente o próximo, ama a Deus, e vice-versa.

Nosso Senhor é o próprio Amor que nos amou primeiro (cf. I Jo 4, 19), a ponto de entregar-Se na Cruz como amigo (cf. Jo 15, 13) e fazer-nos herdeiros da eterna bem-aventurança. Jesus também nos atrai para a união com Ele, que se torna efetiva pela caridade, vínculo de perfeição (cf. Cl 3, 14). Nessa virtude estão incluídas todas as demais.5 Para isso, convém seguir a recomendação de São Paulo, isto é, tornar-se imitador dos Santos e do Senhor, “acolhendo a Palavra com a alegria do Espírito Santo, apesar de tantas tribulações” (I Ts 1, 6).

Que, ao trilharmos esse caminho, por vezes sinuoso, o nosso amor ao próximo não seja um mero esforço humano, mas o reflexo concreto do amor absoluto do Pai por cada um de nós, purificando nosso entendimento e nossa vontade, para nos preparar para a visão beatífica, onde a suprema virtude – a caridade – será, enfim, a única Lei que reinará eternamente: “o amor jamais acabará” (I Cor 13, 8). 

Notas:


1 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Super Matthæum, c.XXII, lect.4, n.1811.
2 Ibid., n.1813.
3 Cf. ibid., n.1819.
4 Cf. BENTO XVI. Deus caritas est, n.16-18.
5 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.44, a.1.