A harmonia entre fé e razão é um dos elementos fulcrais da Teologia católica.
Já no século II, São Justino apregoava que o Cristianismo era “a única Filosofia segura e proveitosa”,1 e Clemente de Alexandria denominou o Evangelho de “a verdadeira Filosofia”.2
São Tomás de Aquino elaborou a melhor síntese acerca dessa inter-relação. Sem a fé, poucos alcançariam o conhecimento de Deus, porque a pura via racional é árdua e dificultosa, raramente imune a dúvidas e até falsidades.
Entrementes, a razão resulta indispensável para demonstrar os preâmbulos da fé, esclarecer suas verdades e refutar seus opositores.
Lutero abriu uma cisão não só na Igreja, mas também no próprio conúbio entre fé e razão. Profundamente antitomista, para ele a razão é uma “prostituta do diabo” e a fé uma mera confiança subjetiva.
Bastaria crer – sola fides – para se salvar. A Revolução Protestante, ao excluir da fé o elemento razão, destituiu aquela da sua própria essência. Com efeito, a fé é um hábito da mente, de modo que todo autêntico ato de crer consiste também em ato intelectivo.
Sob a empáfia iluminista, a Revolução Francesa perseguiu a Igreja e o clero a fim de subverter a religiosidade num falso culto à “deusa razão”.
Em honra desta deidade, representada por uma meretriz, foram realizados festins blasfemos em diversas catedrais convertidas em acintosos “templos da razão”.
A Revolução Comunista arvorou-se em onipotente, ao mesmo tempo que inseriu a religião e os homens de fé na dialética de opressora-oprimidos.
No fundo, na visão marxista a fé, a razão e o Estado se identificariam, pois o povo precisaria crer incondicionalmente no Estado-Leviatã que daria as balizas da “razão” a todas as coisas.
O século XX engendrou várias revoluções, como a estudantil de maio de 1968, a tribalista e as culturais de diversas naturezas, todas elas com um denominador comum.
Com efeito, deitaram especial empenho em influenciar as tendências sensitivas humanas, promovendo assim uma fé cega na irracionalidade, por vezes sob a carapaça da defesa da “ciência” e do “esclarecimento”.
Uma solução genuinamente católica suporia o restabelecimento da autêntica harmonia entre fé e razão. Sem embargo, faz-se necessário ir mais além.
A fé é morta se não está revestida da caridade (cf. Tg 2, 17), e toda sabedoria que não vem do Alto “é terrena, animal e demoníaca” (Tg 3, 15).
Por isso, torna-se indispensável também moldar a mentalidade segundo as coisas do Céu (cf. Col 3, 1), onde repousa a verdadeira sabedoria.
Nas palavras do Papa Leão XIV, “somente numa vida em conformidade com o Evangelho se realiza a adesão à verdade divina que professamos, tornando credível o nosso testemunho e a missão da Igreja”.3
A fé é tão somente uma prelibação da visão beatífica, na qual a razão silogística dará lugar à intuição pura da Santíssima Trindade.
Na pátria contemplaremos a Deus “tal como Ele é” (I Jo 3, 2), pela luz da glória – lumen gloriæ – infundida em nosso espírito ou, como afirmam os teólogos, por um empréstimo feito a nós da própria inteligência divina.
Não mais haverá fé, só a intelecção fruto de uma completa metanoia, ou seja, de uma radical mudança de mentalidade. Esta não será produzida por revoluções que distorcem a racionalidade humana, mas infundida pelo Espírito Santo.